MULHERES NO INFORMAL: Venda de comida na rua vira sustento de famílias

18:28

 A VENDA de comida nas ruas e avenidas da cidade de Nampula é um negócio antigo que vem transformando vidas de muitas mulheres e suas famílias. O dia-a-dia das praticantes é de sacrifício, pois devem confeccionar a comida, transportá-la e conservá-la quente até aos pontos de venda. 



São vendedoras ambulantes que na sua condição de vulnerabilidade, maioritariamente mães solteiras, casadas, divorciadas ou viúvas, fazem a rotina, nas ruas, com o risco de algumas vezes regressarem com o produto.


O menu é variado, mas o destaque vai para comidas típicas como xima ou caracata e matapa, arroz e feijão acompanhado de carapau, papahi (peixe miúdo) frito, entre outros pratos que atraem os consumidores.


A preferência pela comida preparada por estas mulheres, geralmente expostas ao sol, tem a ver com o baixo preço praticado, comparativamente a alguns proprietários de estabelecimentos de restauração e barracas.


A título de exemplo, um prato de xima e carapau com amendoim, sai a 10 meticais nas vendedoras ambulantes, contra os 50 ou 60 meticais, praticados pelas barracas e acima de 300 meticais, nos restaurantes.


Ana Manuel é vendedora ambulante de comida há mais de cinco anos anos, na Avenida Eduardo Mondlane, manifestou a sua satisfação com o negócio, pois o valor que consegue, diariamente, é suficiente para garantir a sobrevivência dos seus três filhos, assim como para custear os seus estudos.


Conta que antes de praticar o negócio, tinha o plano de criar um projecto de horticultura, na área de Nampaco, com o suporte financeiro do Fundo de Alívio à Pobreza Urbana, que o município tinha prometido. O financiamento falhou, consequentemente o projecto não avançou. 


Ana João, residente no bairro de Muatala, considera a venda de comida na rua como um grande alívio para a maioria das mulheres desfavorecidas da cidade de Nampula, por ser uma actividade lucrativa, onde se pode ganhar o dinheiro todos os dias.


“Claro que é um negócio de persistência, ditada pela conjuntura económica que hoje vivemos no nosso país, porque se eu tivesse emprego não estaria aqui como ambulante de comida. O trabalho é duro e oneroso, pelo facto de produtos como tomate, cebola, farinha de milho, feijão e outros, que constituem a nossa matéria-prima estarem a registar a subida de preço constantemente, no mercado”, explicou, afirmando que mesmo assim o número de vendedoras está a aumentar, o que já cria espaço para concorrência e, consequentemente, a obrigatoriedade de melhorar a qualidade da comida.


 Mariamo Junqueiro, de 25 anos, mãe de dois filhos, residente no bairro de Namutequeliua, explicou que abraçou a actividade vendendo apenas xima e carapau, na zona da Memória, há cerca de dois anos. Tudo começou quando o seu esposo perdeu a vida.


Disse que no início, o negócio não andava bem, mas quando decidiu mudar da área para Avenida do Trabalho e pediu um empréstimo a uma instituição de micro crédito, tudo mudou e vieram os lucros.


Explicou que agora consegue sobreviver com a venda de comida, pois para além do lucro diário, consegue às vezes entre 300 e 400 meticais para a compra de ingredientes para preparar as refeições do dia seguinte. 


“Claro que esses valores não são muitos, mas garante o sustento da família incluindo o pagamento das despesas dos seus estudos e continuidade do trabalho”, disse agradecendo o facto de o Conselho Municipal ainda não cobrar nenhuma taxa. Vou continuar com o negócio”, sustentou.


Para Maimuna Momede, residente no bairro de Namicopo, a principal motivação foi o sofrimento vivido depois de ter enviuvado e perdido os seus bens, incluindo a casa onde vivia com o seu esposo, num acto perpetrado pelos familiares do malogrado.


“A minha vizinha convidou-me a entrar para o negócio mas porque estava casada e tinha mínimas condições de sobrevivência, declinei alegadamente para não me expor na rua. O meu marido nunca iria aceitar que eu fosse à rua para fazer este tipo de negócio por temer assédio. Hoje não me arrependo de ter optado pela venda de comida na rua, porque não tenho falta do essencial para sobreviver. Pena é que na rua faltam condições para este tipo de actividade ”, contou.


O perigo da falta de higiene


A FALTA de condições higiénicas na prática desta actividade é vista como maior perigo sobretudo para os consumidores tendo em conta que, por um lado, os utensílios usados para servir a comida não são devidamente lavados e a comida fica sempre exposta a poeira e moscas, em plena via pública.


Aliado a isso, outra situação anómala, que aumenta o perigo de contracção de doenças, nesses “refeitórios” ao ar livre, é a falta de sanitários públicos. Os clientes, antes ou depois das refeições não têm um local apropriado para satisfazerem as suas necessidades biológicas, convivendo, por vezes, com cheiro nauseabundo provocado principalmente pela urina, nos muros e acácias.    


Manuela de Jesus vende num dos locais mais imundos da Rua da Unidade, e diz que reconhece o risco decorrente para a sua saúde e a dos seus clientes. Porque não tem como mudar de lugar, expõe-se àquela situação, para além do facto de os seus clientes estarem habituados.


Explica que ela e colegas já pediram a edilidade, no sentido de arranjar outro lugar adequado, mas até agora não houve resposta.


“Pedimos para que o município instale sanitários públicos nas ruas onde vendemos a comida, isso tendo em conta que são sítios onde permanecemos por muito tempo”, disse.


A falta de higiene é um aspecto aparentemente ignorado pelos consumidores, pois, mesmo que a comida seja exposta por exemplo às moscas e poeira, compram-na por, alegadamente, não terem outra alternativa.


Aliás, a venda de comida nas ruas representa igualmente um outro perigo, de atropelamento, não só para as negociantes, como também os consumidores. Recentemente, uma vendedora foi atropelada por uma viatura, na zona do viaduto, que também concentra muitas vendedoras de comida, no bairro de Napipine, na tentativa de disputar um cliente.


As entidades locais, sobretudo o Conselho Municipal da Cidade de Nampula, vão assistindo esse cenário impávidos.  


A comida que sobra, geralmente é jogada no local da venda e fica uma lixeira que, com a demora da recolha produz um cheiro nauseabundo.


Município estuda retirada  


O CONSELHO Municipal da Cidade de Nampula diz estar a estudar formas de retirar as vendedoras ambulantes de comida, pelo facto de a actividade estar a ser desenvolvida em violação da postura camarária.


O vereador do pelouro de Mercados e Feiras, Osvaldo Ossufo Momade, explicou que o estudo minucioso visa, em parte, permitir que a retirada não seja prejudicial para as negociantes, o que passa por procurar um espaço adequado onde possam desenvolver a sua actividade de sobrevivência, em melhores condições de higiene e segurança.


“Mesmo na reunião que realizamos, recentemente, na cidade de Nampula, debatemos muito a situação da venda ambulante de comida na cidade. Não queremos que continuem a vender na rua, aliás, é por isso que não estamos a cobrar nenhuma taxa, pois estaríamos a legitimar uma actividade ilegal que atenta à postura camarária”, enfatizou.


A fonte referiu que a edilidade reconhece o perigo para a saúde pública, que os locais onde as mulheres vendem a comida representam. Porém não pode construir sanitários públicos nos lugares em que proíbe o desenvolvimento de qualquer actividade, como é o caso vertente.


No entanto, a não cobrança da taxa está a fazer com que o município perca receitas, tal como acontece com os vendedores informais, que desenvolvem a sua actividade nas esquinas e ruas da cidade.

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